Sobre como o trabalho nos forma


“As pessoas procuram aprender marcenaria porque elas querem mudar.” Ouvi essa frase outro dia, e fiquei pensando. O trabalho como veículo para a que a gente se construa, se aprimore. A prática diária capaz de despertar sensibilidades e ensinar o óbvio.

O ofício manual me dá enormes desafios. O material está aqui presente, orgânico, formado a minha completa revelia. Meus erros são evidentes: o encaixe não assenta, o tampo não ficou plano, uma das portas fora de alinhamento. A realidade material se impõe sem demora, não carece de teorias ou explicações. O que ela pede, portanto, é que se tenha iniciativa: começar, mesmo sem as condições ideais; testar quando há dúvida; experimentar, com toda atenção, para errar erros novos; concluir a peça, mesmo imperfeita, para poder começar tudo outra vez. Partindo agora de um ponto um pouco mais adiante. Tendo entendido, tomara, algo a mais sobre o material, sobre a prática.

Acontece que entre essas sequências de ações, medidas, cortes e poeira, há sempre espaço para uma outra parte desse trabalho. Em pausa, observamos o que as mãos fizeram. Reparamos as proporções, o acabamento, o estado da oficina no fim do dia. Reparamos a madeira. Como se mexeu, como passou por cada processo, analisamos bem de perto como foi que resultou. Com o somar dos dias, vem vindo a clareza de como a madeira é, ao mesmo tempo, maravilhosamente versátil e tantas vezes temperamental, cheia de segredos. Por mais que se aprenda, o sucesso da peça está sempre a perigo, sempre a um erro de distância. A emoção é tantas vezes palpável: o risco de estragar tudo, perder o trabalho já empenhado. Como uma criança aprendendo a usar uma tesoura, com cuidado e atenção, esperamos a recompensa de ver que a madeira, cooperativa, gostou da sua nova forma. Reparamos que, no seu tempo, as mãos vão aprendendo. O que era difícil no ano passado já não preocupa tanto assim. E refletindo sobre o todo, vamos vendo o que o hábito e a persistência podem fazer conosco.

Para mim, a prática material tem sido um canal riquíssimo para que eu pense sobre meu lugar no mundo. Sobre como o trabalho se encaixa no todo social e orgânico em que vivemos. Acredito mesmo que quem trabalha atentamente com as mãos vai estabelecendo, lenta e naturalmente, uma nova relação com o tempo e com o espaço.

Imagine que durante três semanas você dedique o seu melhor para construir uma cadeira. Toda a sua atenção, conhecimento e habilidade ali, materializados naquele um objeto, uma unidade. Tanto do desafio consiste em fazer as pazes com o tempo que o processo levará. Cuidar diligentemente da tarefa da vez, para que seja bem feita, sem atalhos. Sem perfeccionismos fora da medida, e sem neuroses, somente a tarefa extremamente bem feita. Vai ficando claro a que ponto nós, humanos modernos, estamos adoecidos de ansiedade e impaciência. Somos educados e coagidos a ver o mundo como uma máquina-mercado de prazeres a venda, sem fim e sem começo, novos caprichos e já obsoletos, o novo vem aí, há que se trocar. Por necessidade, o artesão busca uma nova relação com o tempo, resistindo tanto quanto possível à pressão por eficiência e quantidade que corrói todo esforço de conexão cuidadosa e afetiva com o outro. Usando a frase de Ailton Krenak, o artesão que busca entender seu lugar no mundo moderno é levado a mobilizar “todo sentimento de solidariedade, onde a terra clama por um ritmo pausado de conversas amigas”.

Um entendimento do nosso lugar como ocupantes de espaço surge da relação que o artesão busca desenvolver com seu material. O amor da tecelã pela sua prática dirige sua curiosidade muito além do novelo, para entender a terra onde cresceu a fibra, e as nuances do pigmento. O ceramista não trabalha no vácuo de uma torre climatizada. Muito pelo contrário. Ele repara nos tons de terra enquanto caminha, busca nos formigueiros novos matizes e nas cinzas novas possibilidades. Quem faz vinhos por amor atenta e muito para a vida incessante que habita o solo, sabe o que esperar dos frutos de antigas parreiras a depender do regime de chuvas. O luthier se interessa pelos biomas em que árvores seculares se desenvolvem para que o violão reverbere com clareza uma infinidade precisa de agudos cristalinos e graves profundos. Entender os processos pelos quais as coisas são feitas nos faz atentos ao meio orgânico, natural e mineral que nos fornece tudo. Em contrapartida, consumir descartáveis nos desterra violentamente, a ponto de nos deixar indiferentes a ruína grandiosa que está em construção, sob o nome de desenvolvimento. Trabalhar de perto com as madeiras me transporta para a verdade das florestas, seus rios voadores, seu grau de interconexão e inteligência dinâmica que não nos é dado entender, mas respeitar.

É preciso lutar contra a força que nos desterra, contra a voz interna que tem pressa, que julga tudo pela rapidez, pelo volume, que ignora completamente a dinâmica suave que têm os atos de cuidado. É preciso conquistar um espaço de liberdade onde o valor do trabalho está nas qualidades sutis daquilo que é bem feito, daquilo que traz em si a presença e o cuidado. O trabalho passa a ter objetivos que em muito extrapolam a eficiência quantitativa, o fazer mais por menos como a meta em si. Trabalhar adquire uma dimensão formativa sobre nós mesmos, porque implica em uma nova forma de compreender espaço e tempo. De fato, o jardim forma o paisagista. A sinfonia compõe Bethooven. A cadeira me constrói.

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